COMO
SE FAZ UM SANTO?
1. Desejo começar
por dizer quanto me sinto honrado pelo convite para ser um dos apresentadores
do livro “Como se faz um Santo” da autoria de Sua Eminência o Cardeal D. José
Saraiva Martins
Foi de uma ousadia imprevidente ter aceite
a responsabilidade de comentar o livro que aqui hoje nos congrega, na presença
do seu autor, do Padre Peter Stilwell e de tão ilustres convidados.
Tentei encontrar uma boa explicação para
este encargo com que a Zita Seabra me apanhou desprevenido. Não sendo um
profundo conhecedor da Causa dos Santos, não tendo sequer conhecimentos
teológicos para além do que a minha fé e o auto-didactismo me permitem, cheguei
à conclusão que só se pode dever a uma sólida razão; a de não ser um santo,
antes um pecador!
Em todo o caso, espero não ser
impertinente e, neste contexto, conseguir o milagre de não “fazer perder a paciência
a um santo”…
2. “Como se faz um
Santo” – em boa hora editado pela Aletheia,
no seguimento, aliás, de outras excelentes obras já editadas – é um livro
exemplarmente saboroso.
Dizia Jean Guitton que um bom livro
representa sempre uma vitória do espírito
sobre a matéria. Este livro, em forma de escorreita e incisiva entrevista
de Saverio Gaeta ao Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, é uma
lição espiritualmente profunda e pessoalmente enriquecedora sobre a santidade de
sempre e de hoje.
Um livro que lemos com o perfume da Graça
do Espírito, ao mesmo tempo imaginando nas suas entrelinhas o sorriso amigo do
seu autor e a serenidade afectuosa das suas reflexões.
Um livro que é um roteiro, uma digressão,
uma peregrinação espiritual pelos caminhos para a santidade. Profundo e
estruturado no pensamento, pedagógico na abordagem “técnica” e “processual”,
esteticamente belo, minucioso nos detalhes, revelador na curiosidade procurada
pelo leitor, profundamente humanista nos momentos da vida pessoal e eclesial
que o Senhor Cardeal connosco quis partilhar nesta obra.
Um livro que – imagino – foi pensado e
escrito com a naturalidade, a autenticidade, a exactidão e a sedução de quem
conhece como ninguém a Causa dos Santos.
3. Uma obra que, também
por tratar de santos, está salpicada de humor. De um humor que é uma
competência, um acto de inteligência de se ser com e para os outros.
Porque o humor inteligente e suave é sempre
graça e espírito. Uma graça que brota da Graça Divina e um espírito que não
existiria sem o Espírito Santo.
Logo, a Graça da fé e o humor da graça
fazem parte do todo do livro ainda que não sejam tudo no livro.
Exemplos: O registo civil do céu para significar, com humor, a Congregação
para a Causa dos Santos, um Santo que não
é um produto feito em série, mas antes uma obra de artesanato divino, ou os soldados desconhecidos da santidade
para significar quantos viveram e morreram santamente, são, entre outras,
expressões, exemplos do sentido de humor que nos faz prever, sem dificuldade,
que há seguramente humor no Paraíso!
4. Se escrever um livro é estar com o outro que
está dentro de nós como dizia Vergílio Ferreira, ler um livro como este é,
para mim, ser com o outro que entrou em nós.
De entre a imensidão do desfrute desta
obra é difícil seleccionar e sintetizar o que dela mais aconteceu e ficou em
mim.
Arriscaria, no entanto, sublinhar a
principal mensagem que retive: a natureza “natural”, “normal” da santidade. Diz
o Senhor D. Saraiva Martins que a santidade não consiste em fazer nada de
extraordinário, longe do alcance do homem comum, mas sim fazer sempre e bem as
coisas ordinárias, no trabalho, na família, na sociedade, na vocação. E concretizar
um projecto de vida, praticar o bem comum na plenitude da Lei, isto é na
caridade.
A Santidade requer o heroísmo na prática
das virtudes e a grandeza da vida comum. Nada fora do comum, do nosso mundo,
nada de “exótico”.
No fundo, somos reconduzidos à mais forte
constatação: a de que para se ser santo é necessário praticar e, acima de tudo,
concretizar o Evangelho.
Por isso, no livro se desenvolve a ideia
central da convergência inerente à santidade, que como perfeição da humanidade,
se revela no homem que entra em Deus e em Deus que abraça o homem. Assim se
atinge a perfeição da caridade entendida como o mais elevada medida de amor
para com o Criador e para com o próximo. São Paulo haveria de sintetizá-la numa
curtíssima expressão: não vivo mais eu,
mas Cristo vive em mim.
O Senhor D. Saraiva
O mundo precisa mais do que nunca de
santos e de santidade!
Precisamos dos santos e das santas como
intercessores e como modelos. No meio da aridez, da solidão, da dor e do
sofrimento são uma espécie de eficazes antidepressivos que se podem obter sem
receita e sem taxa moderadora.
Precisa o povo de Deus e precisa a Igreja
para acelerar a unidade dos cristãos pela
via do ecumenismo como sublinhou João Paulo II na sua carta Apostólica “No
início do novo milénio”.
5. Da leitura
intensa do livro podemos ver, com a luz da fé e o sinal da esperança, como será
belo o caminho para a santidade e como estamos, ao mesmo tempo, tão perto e tão
longe de a alcançar.
Hoje, a santidade representa a purificação
da heroicidade do simples e é a expressão vitoriosa do homem de e para todos os
tempos sobre o homem do instante.
Numa sociedade de “zapping”, comportamentalmente
hedonista, moralmente minimalista e relativista traduzida num eclipse de valores (expressão do autor
no livro), socialmente predadora e subjugada à “ditadura do
eu-em-primeiro-lugar”, fóbica em relação ao transcendente, o santo exprime um
projecto de vida contra a corrente. Porque, como se diz no livro, subir montanhas é sempre muito difícil. É
mais fácil viver na planície
Ser santo sempre representou uma forma de
subversão, traduzida em cada época de modo diverso e como regra vivida na
ausência de qualquer forma de poder que é onde se revela toda a força da
presença de Deus.
Os
santos ensinam-nos a perceber que só se encontra verdadeira paz lá bem no fundo
de nós mesmos. Um encontro, é certo, bem difícil de concretizar, num tempo em
que tudo se move na superficialidade. Mas o seu testemunho de vida e de fé
diz-nos que, quando lá se chega, tudo se torna luminoso. Mesmo a escuridão,
porque a mais consistente felicidade é a que está para além da luz que os
nossos olhos atingem.
Não resisto a citar novamente Jean
Guitton, no seu livro “As minhas razões de crer”: Não creio que possa existir uma obra de amor sem um enraizamento no
quotidiano. A fé resulta de um acordo entre o que ela enuncia e a experiência,
o som da vida humana, tão complexo e tão simples.
Na sociedade contemporânea em que, no
plano da relação com Deus, clamamos muito mas obedecemos pouco, ou – voltando a
citar o Senhor D. Saraiva Martins – em
que o homem de hoje é um homem cansado, sem ideias, sem entusiasmo, os
Santos são uma espécie de novos insurrectos sinalizadores e modelos da pureza,
da harmonia, da espiritualidade levada à sua mais bela singeleza.
Se há quem congregue sem ensinar e quem
ensine sem congregar, um santo ensina e congrega na universalidade do seu
exemplo e na perfeição das suas virtudes.
A santidade sempre foi entendida como a
expressão da Graça Divina, mas também da condição livre de se ser pessoa. Assim
foi e tem sido através dos tempos, desde os mártires dos primeiros séculos, aos
confessores medievais, aos santos e beatos missionários, aos santos da época
moderna pioneiros no anúncio e na denúncia dos males sociais de então, aos de
agora cuja santidade se exprime na família, na educação, na empresa, no
trabalho, nas vocações, na vida pública.
A
“coligação” celestial dos santos, beatos e veneráveis unidos pelas virtudes
teologais da fé, esperança e caridade e com um programa baseado nas virtudes
cardiais da prudência, justiça, fortaleza e temperança constituem certamente
uma ampla maioria qualificada no “parlamento do céu” e são o elo geracional e
diacrónico da identidade da igreja que vai para além do tempo.
6. Se bem percebo
a ideia e a prática da santidade, podemos ver nela um tesouro de vida que nos
ensina:
Que o mais difícil de alcançar é o
simples.
Que o mais possível de alcançar é o que
mais impossível parece.
Que o maior alimento do direito é o dever.
Que o mais aparentemente insignificante
sacrifício pode ser o mais virtuoso.
Que a maior recompensa do corpo é a
serenidade da alma.
Que
a mais radical sinceridade é irmã gémea da verdade.
Que
a mais austera perseverança é irmã gémea da bondade.
Que a mais pura humildade é irmã gémea da
beleza.
Que o heroísmo é a persistência paciente
na luta de cada dia.
Que
a caridade é o coração da inteligência e a inteligência do coração.
Que
na autenticidade está a verdade do comportamento.
Que na fidelidade está o coração do
comportamento.
Que o erro é a constatação da nossa
debilidade, mas ao mesmo tempo, a bússola da nossa capacidade.
Que a mais minúscula verdade supera as
mais poderosas mentiras.
Que a mais insignificante das perfeições é
preferível à mais sonante das imperfeições.
Que o importante não é dissolvido no
urgente, avulso ou superficial, porque o importante nem sempre é urgente,
raramente é avulso e nunca é superficial.
Que o optimismo radica na esperança, na
virtude, no trabalho e que o pessimismo radica na indiferença.
Que as virtudes existem para ser
praticadas e não apenas enaltecidas.
Que o exemplo é o caminho mais curto para
o bem e o mais contagiante para os outros.
Que a partir do nosso interior se pode
transformar o que nos é exterior.
Que o dever de trabalhar e partilhar
começa no nosso interior e prolonga-se no interior dos outros.
Que ao utilitarismo estéril se responde
com a humanidade fecunda com que a vida se deve viver em cada momento.
Que a abnegação, para além do que
transporta de dedicação, é o antídoto para o individualismo predador.
Enfim,
que a esperança se espera, sem esperar…
7. Num tempo em
que a medida fácil e obsessiva é a da quantidade, há quem seja tentado a concentrar-se
no número de novos santos e beatos, como que reduzindo a Causa dos Santos a uma
taxa de inflação da santidade!
O Senhor D. Saraiva Martins,
eloquentemente, demonstra e justifica esta bem-vinda ampliação hagiológica, em
especial com Sua Santidade o Papa João Paulo II, e afasta, com clareza, a
tendência para uma religião observada pela quantidade ou vista como não
vinculativa e de mera opinião ou, ainda, como forma de contrafacção da própria
fé.
Dizia no seu livro “O sal da terra” o
então Cardeal Ratzinger que a estatística
não é uma medida de Deus e que a
Igreja não é um empreendimento comercial orientado pelo sucesso. Pois
também neste caso, não devemos reduzir a ideia de santidade a uma expressão de
secularização sociológica de um atlas dos Santos e Beatos ou de uma geografia
hagiográfica ilustrada e comentada.
8. Vou terminar com
uma referência à Beata Madre Teresa de Calcutá, a quem Vossa Eminência dedica,
aliás, uma parte muito bela do livro e sobre a qual, aliás, recorda o que,
quando ela visitou a sede das Nações Unidas, o Secretário-Geral da ONU disse, numa
alusão à sua força interior e ao seu exemplo ecuménico e universal: Ela é que é verdadeiramente as Nações Unidas.
Disse um dia a Beata Teresa que:
A oração é o fruto do
silêncio.
O
fruto do silêncio é a fé.
O
fruto da fé é o amor.
O
fruto do amor é o serviço.
O fruto do serviço é a
paz.
Eis
como de uma maneira notavelmente bela, ela fez a síntese da santidade, da ponte
entre a fé interior e a esperança no mundo.
Porque
tudo começa pela oração, porque o começo está na ligação com O que nos concedeu
o dom da vida. No silêncio, que, tantas vezes, é a forma do respeito, a
expressão do amor, o anúncio do encontro e que nos permite aproximamo-nos de
Deus. Com alegria que a fé nos concede, e com a dúvida que torna a fé mais
livre e profunda. Com a fé, com que alcançamos o amor e a comunhão e esperamos
a vida eterna. Com o amor que alimenta a partilha generosa e o serviço gratuito,
desinteressado, compassivo. Com o serviço com que se constrói a paz e nos resgatamos
da opressão.
9. Muito obrigado
Senhor Cardeal pela lição que nos ofereceu com o seu livro (eu que confesso
humildemente que tinha dificuldades em distinguir, em alguns aspectos ditos procedimentais,
o beato do santo…).
Um
dia li uma pergunta que alguém fez a Óscar Wilde: sabes qual é a diferença entre um santo e um pecador? à qual o
escritor irlandês respondeu: Sei. É que o
santo tem sempre um passado e o pecador tem sempre um futuro. Descontado o
fulminante e célebre repentismo cínico do escritor, é assim que muita gente –
mesmo entre os católicos, em particular os “light” – pensa…e age!
Por
certo, este livro faria bem a Óscar Wilde e fará muito bem a todos quantos se
deixam fascinar pelo efémero, pelo circunstancial, pelo prazer sem consciência,
pelo curto-circuito entre o dinheiro e a consciência.
A propósito do dinheiro, espero que este
consolador “Como se faz um santo” não se venha a resumir (como já vi
noticiado…) a um “Quanto custa um santo”, como se este pormenor à vista fosse
determinante quando comparado com a riqueza espiritual da obra.
Este livro, como os bons e marcantes
livros – tem um carácter personalizadamente patrimonial porque nos pertence na
posse da sua leitura, na visita da sua releitura, e – estou certo – na memória
da sua ausência.
E porque não na beleza da sua capa onde
sentimos o nosso Santo António, padroeiro da nossa Lisboa?
No fim de tudo, fica-nos o gosto por mais,
Senhor Cardeal e a ideia central – voltando a citar Bento XVI – de que se Deus não está presente tudo se torna
completamente insuficiente.
Muito obrigado!