Justiça malparada
Público, 19.04.2009, António Barreto - Retrato da Semana
A distinção, para efeitos de corrupção, entre actos lícitos e ilícitos visa salvaguardar as causas verdadeiras da corrupção
A facilidade com que, em Portugal, um caso de justiça se transforma num caso da justiça! É este um dos piores sintomas do estado a que chegou este sistema público. A menina desaparecida no Algarve quase deixou de ser assunto e preocupação, para que o processo, as querelas entre polícias, a competição entre poderes e tutelas, os erros de investigação e as fugas de informação se tornassem o assunto realmente importante.
A criança disputada entre o pai biológico e a família adoptiva (ou que pretendia
sê-lo) depressa passou a ser um pretexto para rivalidades entre tribunais e
psicólogos.
O processo Casa Pia vai ficar nos anais da justiça portuguesa sobretudo por
causa das influências políticas, dos erros de instrução, das fantasias dos
interrogatórios, das práticas insólitas de investigação, das quebras de segredo
de justiça e das quezílias entre magistrados ou entre polícias. O caso
Bragaparques é o sinal exacto do modo como muitos magistrados olham para a
corrupção e a respectiva sentença ficará como modelo.
O julgamento de Fátima Felgueiras é rico de peripécias judiciais e fugas, tanto
de informação como da arguida.
A história do Freeport, longe do fim, é uma enciclopédia da má investigação, da
rivalidade entre polícias, de pressões políticas, de arrogância, de quebra de
segredo propositada e de promiscuidade entre a justiça, a política e os
negócios.
Os casos do futebol e das SAD estão aí para demonstrar a fragilidade do sistema
judicial e da legislação.
Os processos dos bancos mostram como é fácil, quando se tem poder, manipular a
informação, passar entre as gotas de água da fiscalização e transformar em
lícitos os mais ignóbeis processos de fraude e evasão à lei.
Todos estes processos acabaram por se metamorfosear em questões da justiça,
sendo cada vez mais irrelevante a matéria substantiva. O protagonismo de
magistrados e polícias e os atropelos de processo ganharam importância e é disso
que se discute, não a matéria em apreço. Foram "pressões" conhecidas ou
suspeitas; fugas de informação deliberadas e dirigidas; quebras estratégicas de
segredo de justiça; técnicas de investigação estapafúrdias; métodos de
interrogação e investigação vergonhosos; e acusações públicas entre os
operadores de justiça.
Mau grado os milhares de casos resolvidos todos os dias, são os processos
"pesados" (pelo dinheiro, pela política, pelo gosto da imprensa ou pelos nomes
envolvidos) que dão à justiça portuguesa este carácter de ópera bufa que lhe faz
a sua reputação.
Os magistrados e os polícias falam de mais em público e, quando podem e querem,
criam polémicas que afectam a segurança e a certeza da justiça. A actuação de
dirigentes e ex-dirigentes, de quadros superiores e ex-quadros, da Polícia
Judiciária em vários casos, com relevo para a Casa Pia, o Freeport e a menina
inglesa, foi própria de querela de taberna ou de balneário Os corpos
profissionais da justiça organizam-se para se combaterem, mas também, quando é
preciso, para afrontarem a sociedade e o Estado.
As recentes cerimónias de posse dos presidentes dos sindicatos de magistrados
judiciais e do ministério público (que não deveriam existir) são autênticos
rituais de Estado e poder. Estes sindicatos, aliás, metem o nariz onde não devem
e ocupam-se mais de política geral e de política de justiça do que do próprio do
sindicalismo, isto é, das questões profissionais e laborais. Alguns dirigentes
sindicais chegam a ter influência em processos em curso!
A porosidade entre tribunais superiores, conselhos superiores e sindicatos é
assustadora.
A Procuradoria - Geral da República é, há vários anos, um problema real da
justiça portuguesa.
A situação em que se encontra o provedor de Justiça é, ao mesmo tempo, uma
metáfora e o retrato exacto da Justiça portuguesa. O desempenho de funções
políticas por magistrados, desde a requisição para gabinetes e outras
instituições, até ao exercício de cargos políticos, mantém-se e desenvolve-se
sem chocar quem quer que seja.
O Parlamento, com mais competências em matéria legislativa e judicial do que o
Governo, mantém um silêncio e uma inacção próprios dos impotentes.
A Justiça é cara, muito cara. O aumento das custas (mais que compensa as
reduções marginais) e o respectivo pagamento "à cabeça" vêm criar novos
problemas sociais numa justiça que já é desigual. O Governo encara esses custos
como uma espécie de "taxa moderadora" da saúde a fim de diminuir "a procura"!
A distinção, para efeitos de corrupção, entre actos lícitos e ilícitos é uma
caricatura e destina-se a salvaguardar as causas verdadeiras da corrupção mais
poderosa e eficaz, a que, a coberto da licitude, envenena o país e a sociedade.
Há leis suficientes para julgar e punir os crimes de evasão fiscal, de fraude,
de corrupção e até de enriquecimento estranho. Mas não há processo, tribunais,
polícias e magistrados à altura. Por isso se fazem novas leis. Por isso não se
cumprirão.
Estudos de opinião recentemente publicados (na Visão, por exemplo) mostram a
terrível percepção que os portugueses têm da justiça. Num caso, consideram a
inoperância do sistema como uma das principais ameaças à liberdade. Noutro,
colocam os magistrados, numa escala de respeito, nas mais baixas posições. Há
vinte ou trinta anos, estavam entre os mais reputados. Hoje, são quase
desprezados. Acima deles, muito longe, médicos, professores, advogados,
engenheiros, polícias e até jornalistas! Abaixo deles, só ministros e deputados!
O chocante é a atitude e o comportamento dos interessados, supondo que o são.
Governo e Parlamento parecem não perceber o que se passa com a falta de respeito
pela justiça e pelos magistrados. Não percebem as causas nem as consequências.
E, se percebem, não querem saber das soluções. Dirigentes das instituições
judiciais e dos sindicatos refugiam-se no direito obscuro, em normas processuais
e na arrogância da cátedra. Apesar da existência de centenas de excelentes
juízes, aqueles de que não se fala e que não aparecem nos sindicatos e na
televisão, a profissão judicial está denegrida pela opinião pública, que a
reserva para o refugo da competência e da seriedade. Um país sem justiça é um
país perigoso.