1.Para os que conhecem o pensamento de Ratzinger e ainda
os sinais do desígnio pastoral do Papa Bento XVI, não foi
novidade que, na sua "Lectio Magistralis" na Universidade de
Ratisbona, o Papa tenha feito a defesa do diálogo entre a fé
e a razão.
Que disse ele, nesse já famoso discurso académico? Resumindo
por palavras muito simples, disse que a razão não pode
excluir a fé, porque a fé não é irracional, mas deve, isso
sim, dialogar com a fé; e que, reciprocamente, a fé deve
dialogar com a razão e não se considerar separada nem
contraditória da razão. O Papa afirmou estas teses por serem
verdade, mas também com o fim de tornar possível um diálogo
universal baseado na razão, na intenção de: convidar, por um
lado, o "iluminismo" da actualidade a ampliar os horizontes
por vezes estreitos em que se auto-limita, na frequente "auto-redução
da razão ocidental"; e, por outro lado, convidar as
religiões ao diálogo com a razão, que é reflexo da Razão
Criadora.
2. Até aqui, provavelmente o discurso do Papa não teria
provocado nem surpresa nem emoção. Mas, nesta economia de
pensamento, Bento XVI incluiu uma crítica à irracionalidade
da "guerra santa", questão da actualidade, e a propósito
citou palavras do Imperador bizantino Manuel II Paleólogo,
dos fins do século XIV, em diálogo com um sábio persa. "De
modo surpreendentemente agreste que nos espanta" (in
erstaunlich schroffer, uns überraschend schroffer Form) -
preveniu expressamente o Papa -, diz o Imperador ao persa:
"mostra-me o que é que Maomé trouxe de novo, e encontrarás
coisas más e desumanas como a sua directiva de difundir pela
espada a fé que pregou". E logo o Papa continua, dizendo
que, depois de se ter pronunciado de modo tão chocante (nachdem
er so zugeschlagen hat), o Imperador explica as razões pelas
quais a difusão da fé mediante a violência é coisa
irracional. As considerações seguintes são notáveis, em
defesa da fé e da razão. Recordo apenas, como exemplo: "agir
segundo a razão é contrário à natureza de Deus"; e ainda:
"uma razão que é surda ao divino e relega a religião para o
âmbito das sub-culturas é incapaz de entrar no diálogo das
culturas".
3. Como se vê, o Papa teve o cuidado de qualificar
negativamente a forma das declarações que citou, para que
ficasse claro que não subscrevia essa forma. Mas também é
verdade que nem por isso o Papa evitou a citação como ponto
de partida discursivo forte para uma censura racional à
"guerra santa". Ora, foi precisamente a forma da pergunta
citada que, sumária e inviesadamente, veio a ser
propagandeada por alguns meios de comunicação social
internacional, aliás já identificados, que, ao abrigo do seu
lato direito de interpretar e prever, não apenas titularam
uma ofensa do Papa ao Islão, como logo anunciaram reacções
violentas dos países islâmicos. O que obviamente funcionou
como estímulo das reacções que depois se seguiram,
declarações e manifestações de protesto, sobretudo em alguns
países muçulmanos. Mas também, deve sublinhar-se, das
declarações e manifestações de apoio ao Papa, inclusive de
figuras relevantes e representativas da cultura e da
religião islâmica.
4. Com tudo isto, resultou de facto, em meu entender, uma
ressonância nova, e mais forte, do pensamento do Papa, nesta
matéria - aliás inteiramente concordante com outras
alocuções, especialmente durante a sua visita à Baviera, de
que a imprensa não fez caso porque aí não encontrou sound
bytes. Essa ressonância mais forte provocou, infelizmente
mas talvez inevitavelmente, polémica e oposições. Aos
espíritos livres, isto é, libertos de paixões e ódios, e bem
intencionados, isto é, desejosos de promover a razão, a paz
e a concórdia entre países e entre culturas, resta (creio
eu) tomar a questão substantiva em causa: a da paz e da
razão, da liberdade e da fraternidade entre povos e entre
culturas; a da condenação da "guerra santa", como
irracional.
5. Repito: para fora e para dentro da Igreja, para o
ocidente e para o Islão, o discurso do Papa relançou de
facto, não com maior novidade, mas com maior força, e talvez
com força politicamente insuperável, dois debates que não se
separam: o debate da relação entre a fé e a razão e o debate
da "guerra santa". Muito simplesmente, eu diria: os que são
contra a "guerra santa" (e o Ocidente, em geral, é contra a
"guerra santa" e é ameaçado por ela) não poderão criticá-la
se não for em nome da razão. Portanto, os que pretendem
criticar a "guerra santa" e, ao mesmo tempo, ser contra a
razão ou contra uma racionalidade de valor universal (pós-modernismo
subjectivista relativista), ficam numa posição absurda e
impotente. O mesmo se aplica aos crentes, porque, disse o
Papa, "não agir segundo a razão, não agir segundo o logos, é
contrário à vontade de Deus".
6. Ora, a guerra já aí está, e precisamente como "guerra
santa" (não comparável às cruzadas, que não foram uma
"guerra santa", nem uma guerra de conquista, mas sim uma
guerra de reconquista, como foi aqui na Península a
"reconquista cristã"). É tempo de pensar e de reconhecer que
não é digno deixar a questão da "guerra santa" aos
argumentos da força das armas ou dos interesses grosseiros
do poder geopolítico, do dinheiro, do petróleo, com o
requinte de por cima nos darmos ao luxo de criticar esses
argumentos. E de facto corre por aí, em matéria de segurança
internacional, um pensamento "politicamente correcto"
europeu contra os Estados Unidos, do mesmo passo que a
Europa se demite, não só de agir mas até mesmo de pensar.
7. Se desejamos um diálogo universal (não apenas político)
entre culturas, entre civilizações, entre povos, não se
podem excluir as religiões; e se se incluem as religiões,
pode o diálogo fazer-se à margem da razão? Ou na descrença
da razão? Não pode. Assim, o irracionalismo pós-modernista,
que, em (falso) nome da razão, expulsa as doutrinas e as
crenças do espaço público e cultural, é afinal
obscurantista, absurdo e desumano, em simetria com o
irracionalismo religioso fundamentalista. Ambos são, ainda
por cima, suicidas.
8. É muito animador verificar que muitas vozes de não
crentes exprimiram nesta ocasião a sua convergência
filosófica com as teses defendidas pelo Papa, que é atacado
por sectores integristas do Islão. Creio que é preciso fazer
suceder a este episódio a defesa e a promoção de um mais
intenso e respeitoso diálogo universal entre a razão e a fé,
entre a laicidade e as religiões. Se lançado em
reciprocidade com o Islão, esse diálogo poderia, e em
sinergia com o diálogo inter-religioso, que já se iniciou,
abrir uma nova época na vida interior do próprio Islão e do
"ocidente", e nas suas relações recíprocas. O que seria
verdadeiramente histórico.
Professor Universitário
ADENDA. Para se comprovar que não está em causa a questão
diplomática de um discurso do Papa, mas sim a doutrina da
Igreja Católica e uma madura convicção teológica e
filosófica de Ratzinger, para ficar mais mais claro que não
se trata de uma crítica ao Islão, mas de uma crítica à
irracionalidade religiosa, no Islão como no cristianismo,
permita-se-me que, para os que estão menos informados, deixe
aqui a sugestão de leitura de um livro de Ratzinger, em
tradução portuguesa da editora Aletheia, intitulado A Europa
de Bento; e, já agora, também de um outro livro de Ratzinger,
do qual, de momento, só disponho da edição italiana: Fede,
Verità, Tolleranza, ed. Cantagalli, Siena, 2003.