Mário
Pinto
Público 09-10-2006
1.As
pessoas normais, e entre elas as pessoas cultas, honradas e de
grande saber jurídico que, ao longo dos séculos, defenderam a
punição dos crimes contra a vida, e entre elas a punição do
crime de aborto, não o fizeram por ódio ou menosprezo dos
criminosos, mas por censura e prevenção dos crimes. É um golpe
baixo da propaganda ideológica e política a favor da legalização
do aborto lançar agora a campanha de que a motivação da defesa
daquela punição é ver as mulheres na cadeia. Só os Goebbels e os
Estalines estão à altura de uma tal calúnia.
2. Sejamos sérios: a questão primacial, neste "crime ou
não-crime", é evidentemente a vítima, é o bem protegido e a
gravidade da ofensa. A responsabilidade do autor do dano é coisa
consequente - a que, não obstante, é devida uma autonomia
própria de tratamento jurídico. A imputação, responsabilização e
punição do crime pode ter distinções e diferenças assinaláveis,
como o direito comparado ilustra, mesmo dentro de uma mesma
opção fundamental de criminalização.
3. A mim, o que mais me impressiona é a falta de argumentação
dos defensores da liberalização do aborto, reduzida
propagandisticamente ao argumento grosseiro da propriedade do
corpo da mulher e aos riscos de saúde de quem comete o crime
forçosamente na clandestinidade. Sempre o absoluto direito de
propriedade a servir o egoísmo! E contudo, o aborto é
primacialmente a questão da autonomia do filho. Será por isso
que sobre o filho não gostam os abortistas de falar?
4. Ao longo de uma experiência de professor, confirmei que
muitos jovens são a favor do aborto porque nunca pensaram e
discutiram com profundidade sobre o assunto. Depois de lerem,
pensarem e discutirem à vontade e durante todo o tempo desejado,
mudam de opinião. Tinham uma opinião superficial. Assim como as
águas superficiais se deslocam com o sopro do vento, assim a
opinião superficial também se orienta com o sopro da propaganda.
É o que se está passando com a opinião sobre liberalização do
aborto.
5. Aliás, para evitar que as pessoas pensem, usa-se uma patente
técnica propagandística, que recorre, entre outros truques, a
(primeiro) fazer desaparecer o "corpo de delito", e (depois) a
vitimizar o autor punido, reduzindo esta vitimização a um clamor
de choque e de vergonha. Há dias, na apresentação da proposta do
PS para o referendo do aborto, o líder da bancada partidária
dizia, em entrevista televisiva, que era uma vergonha para
Portugal não ter ainda uma lei que liberalizasse o aborto. Aí
está, a vergonha sem outras razões. Só falta dizer: não pense,
não discuta, nem veja; envergonhe-se.
6. Sim, nem veja. Esconder, fazer evaporar a vítima do crime, é
tão importante que se faz tabu de mostrar as técnicas do aborto
e os restos mortais do embrião, do feto abortado. Qualquer
pessoa razoável poderá então interrogar-se: mas porque é que se
não hão-de mostrar-se as técnicas do aborto? E até os embriões e
bebés abortados? Mostrar honradamente o horror não é imoral;
imoral é escondê-lo, como se fez nos campos de concentração
nazis.
7. A proibição do aborto está lógica, moral e juridicamente
inserida num instituto jurídico de que fazem parte deveres e
direitos fundamentais - que sempre foram reconhecidos na cultura
de raiz judeo-cristã a que pertencemos, se bem que muitas vezes
de modo incipiente. Como é que então uma coisa tão sagrada e
fundamental se transforma, hoje e de repente, em decisão
arbitrária só da mulher grávida? Nem sequer, e solidariamente,
também do homem pai...
8. Até aqui, o que o direito dizia à mulher grávida era que ela
tinha o dever sagrado de respeitar e proteger a vida nela
gerada. Talvez faltasse hoje reescrever (e isto é que seria um
progresso do moderno Estado social): se toda a mulher tem o
dever e o direito natural e fundamental de gestar e dar à luz o
filho que nela foi gerado, então, e por seu lado, a sociedade e
o Estado têm o dever de garantir à mulher e ao casal o
cumprimento deste dever e a satisfação deste direito - e, sempre
que necessário, o dever de se responsabilizarem (a sociedade e o
Estado) pela criação do nascido.
9. Mas não, isto é que não. Falemos claro e duro. Propagandear
(oficialmente, note-se) preservativos e pílulas abortivas para
todos, isso sim; distribuir anticonceptivos e abortivos de graça
para os adolescentes nas escolas públicas, isso sim; aborto
lícito e gratuito no serviço nacional de saúde, isso sim; mas
tomar conta de bebés de mães que os não podem ou não querem
criar, isso não. Quanto mais drama, melhor: pois se nem sequer
se aceita suspender a instância judicial para as mulheres que
abortam... não quer isso dizer que se pretende manter o
argumento único da vitimização da mulher que aborta para
"forçar" a única saída da liberalização do aborto?
10. Interroguemo-nos. Mas de onde vem esta fúria tão primária e
tão zangada? Nos idos de 1975-1976, no ambiente ideologicamente
marcado pela exaltação das ideologias radicais em que fizemos a
Constituição portuguesa, vão passados apenas trinta anos, não
constavam da agenda política as ideias fracturantes que agora
parecem uma obsessão para certos sectores ideológicos. E por
isso não há traço nenhum destas questões na Constituição: nem
qualquer dúvida sobre a criminalização do aborto, nem qualquer
abertura para as uniões homossexuais, nada.
11. Perguntar-se-á: o que foi que sucedeu, de tão formidável,
que provocou esta súbita revolução? Uma descoberta científica
que mudou toda a ciência, assim como foi a descoberta do
movimento da terra em volta do sol? Não. Uma nova teoria
filosófica ou espiritual, defendida de forma tão convincente que
fez caducar toda a anterior doutrina, assim como foi com o
aparecimento do cristianismo? Não. Então o quê? Qual foi então a
causa que, contra o cerne da concepção médica, humanista e
espiritual do ocidente, lançou pelo mundo fora esta campanha
sobre a bondade do aborto? A que se vêm juntando,
paulatinamente, outras campanhas, como a das uniões homossexuais
equiparadas ao casamento, a da simpatia pela "dignidade" da
eutanásia, quem sabe se a da futura legitimação da selecção
eugénica e práticas análogas.
12. Se não há mudança epocal por razão científica nem por razão
filosófica ou religiosa, resta encontrar razões numa dramática
mudança de mentalidade cultural, que realmente se verifica. Mas
estas mudanças culturais são sempre mais lentas do que tem vindo
a ser esta revolução. Haverá, portanto, algum outro poderoso
factor, de ordem geopolítica.
13. E pode, efectivamente, identificar-se um factor político
candidato a este papel detonador e propulsor desta nova era
fracturante. Refiro-me ao célebre relatório Kissinger,
precisamente de 1974, que esteve classificado durante 15 anos e,
muito significativamente, não costuma constar dos destaques nem
da imprensa nem da política, sobre "as implicações do
crescimento da população mundial para a segurança dos Estados
Unidos e para os seus interesses nas relações internacionais".
14. À revolução de mentalidade e de cultura, por um lado, e à
globalizada campanha internacional contra o crescimento da
população por razões de hegemonia geopolítica, por outro lado,
valerá a pena dedicar futuras reflexões.
Professor universitário