Bento XVI proferiu ontem a sua primeira mensagem de Natal. Saiu da
norma, mostrando como pode surpreender
"Não tenhais medo" disse João Paulo II na sua primeira
aparição, na varanda de São Pedro, após a sua eleição como Papa.
"Não temais!", repetiu anteontem o Patriarca de Lisboa: "A
mensagem desta noite convida-nos a vencer os medos que tolhem a
nossa vida. Hoje, há muita gente com medo, o que impede as
pessoas de serem felizes. Para enfrentar com liberdade as
realidades que nos atemorizam, é preciso vencer o medo, porque
este é um sentimento que tolhe a liberdade e enfraquece a
coragem de lutar". Mais adiante acrescentava que
"paradoxalmente, as chamadas sociedades evoluídas, que optaram
por modelos de desenvolvimento destinados a resolver, pela
ciência e pela técnica, as principais ameaças que pesavam sobre
o ser humano, não anularam o medo". Medo da violência, do
desemprego, da morte, do falhanço nas relações pessoais.
Numa linha que poucos talvez antecipassem como muito próxima, o
Papa Bento XVI, que ontem proferiu a sua primeira saudação Urbi
et Orbi por ocasião do Natal, fez um apelo ainda mais directo:
"Desperta, ó homem do terceiro milénio!", disse. "Deixa o Menino
de Belém conduzir-te pela mão" porque a "força vivificante da
sua luz dá-te coragem para te empenhares na edificação duma nova
ordem mundial, fundada sobre relações éticas e económicas
justas". Uma nova ordem que enfrente "os numerosos e
preocupantes problemas da actualidade, desde a ameaça terrorista
às condições de humilhante pobreza em que vivem milhões de seres
humanos, desde a proliferação das armas às pandemias e à
degradação ambiental que ameaça o futuro do planeta". Preocupa-o
África e nesta em especial o drama do Darfour e a tensão
crescente na península coreana e noutros países asiáticos.
Preocupa-o que "os sinais de esperança" sejam "confirmados
através de comportamentos inspirados pela lealdade e sabedoria"
na Terra Santa, mas também no Iraque e no Líbano. Ou seja,
partilhas as preocupação dos líderes das democracias, mas apenas
dispõe da sua palavra e da Fé que, como se escreve na Bíblia, "o
Verbo era a luz verdadeira que, vindo ao mundo, a todo o homem
ilumina".
Daí que tenha dito que o Menino em que os cristãos acreditam tem
um "modo de ser Deus põe em crise o nosso modo de ser homens":
"o seu bater às nossas portas interpela-nos, interpela a nossa
liberdade e pede-nos para rever a nossa relação com a vida e o
nosso modo de a conceber". Na sua perspectiva, se "a Idade
Moderna é apresentada como um despertar do sono da razão", sem
Cristo "a luz da razão não basta para iluminar o homem e o
mundo". O que lhe permite regressar ao tema do afastamento do
homem moderno da espiritualidade religiosa: "É verdade que, ao
longo do milénio há pouco terminado e de modo especial nos
últimos séculos, foram muitos os progressos realizados em campo
técnico e científico; podemos hoje dispor de vastos recursos
materiais", só que "o homem da era tecnológica corre o risco de
ser vítima dos próprios êxitos da sua inteligência e dos
resultados das suas capacidades inventivas, caminha para uma
atrofia espiritual, um vazio do coração".
A sua preocupação, que esta mensagem reforça, parece ser a de
recuperar o homem moderno para a espiritualidade, não recolocar
a Igreja no centro do poder temporal. Isso, porém, foi melhor
verbalizado por D. José Policarpo: "A afirmação clara de que o
Seu reinado não é deste mundo pode tranquilizar todos quantos
ainda hoje temem que a Igreja queira dominar a sociedade" pois
"a Igreja não quer dominar a Cidade, quer humanizá-la". O que o
leva a reclamar "que ninguém queira expulsar a Igreja da cidade,
porque ela é, na sua pobreza e simplicidade, portadora de um
anúncio de libertação".
Bento XVI merece pois continuar a ser escutado com atenção e sem
os preconceitos que mercaram o anúncio da sua eleição.