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Entrevista a Alice Vieira por Bárbara Wong
“Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho”.
É por causa dos seus
livros que Alice Vieira é convidada para ir às escolas. Há 30 anos, falava de
“Rosa, minha irmã Rosa” aos alunos dos 3.º e 4.º anos, hoje fala sobre o mesmo
livro aos estudantes dos 7.º e 8.º. “Alguma coisa está mal”.
A primeira coisa que ouço dizer é: “Estou cansada”, “vou-me reformar”, “estou farta disto”, “não me pagam para isto”... É só o que eu ouço.
Há um desinteresse, um cansaço e depois há o problema da formação. Eu não quero generalizar, mas esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem? Converso com professores e é um susto, desde a língua portuguesa tratada de uma maneira desgraçada, até ao desconhecimento de autores que deviam ter a obrigação de conhecer... Sabem muito bem o eduquês, mas passar além disso, é difícil. Muitos professores com que lido têm uma formação muito, muito, muito deficiente. Eles fazem com cada erro, que eu fico doida! E não só falam mal como se queixam diante dos miúdos. Podem dizer mal entre eles, mas não diante dos alunos, que depois reproduzem e a balda vai ser completa. A responsabilização dos professores é fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem que os professores não são seguros.
Por exemplo, as
manifestações dos miúdos também me perturbam um bocadinho, porque eles não sabem
o que andam ali a fazer. Os miúdos devem aprender a falar bem, para saber
reclamar, reivindicar, é uma questão de educação. Também é. Os professores queixam-se muito que têm de ser pai, mãe, assistente social, educadores.. . Pois têm! Porque a vida dos miúdos é na escola. Em casa não lhes dão as mínimas noções de educação, o simples “obrigada, se faz favor, desculpe”. Quando os alunos vêem os professores na rua, a berrar e a gritar, o que é que eles pensam? Os alunos manifestam-se para exigir melhor ensino? Não. Não os vejo preocupados porque os professores os ensinam mal.
Não me parece que esteja perdido, se houver bom senso. Não se pode estar a brincar. As pessoas não entendem muito bem que o maior investimento que podem fazer é na educação. Se não tivermos gente educada, a saber, capaz, o que é que vai ser de nós? Estamos a fazer uma geração que não se interessa, não sabe nada, mas berra e grita. E isso perturba-me.
Eu comecei a ir às escolas
há 30 anos, para apresentar o meu primeiro livro “Rosa, minha irmã Rosa” e ía
falar com os alunos de 3.º e 4.º anos. Agora vou, exactamente com o mesmo livro
falar a alunos dos 7.º e 8.º anos. Alguma coisa está mal. É assustador! Outra
coisa assustadora é a utilização da Internet. Estamos a queimar etapas, a atirar computadores para os colos dos miúdos quando não sabem ler nem escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio da língua e da escrita.
Os mais velhos, não sabem utilizar a Internet, não sabem pesquisar, eles clicam, copiam e assinam por baixo. Eu chego a uma escola, vou ver e fizeram 50 trabalhos sobre um livro meu, todos iguais, com os mesmos erros e tudo, porque descarregam da Internet. Pergunto aos professores e respondem-me: “Mas eles tiveram tanto trabalho a procurar...” O professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes, estou a falar com os alunos e tenho a sensação nítida de que não estão a perceber nada do que eu estou a dizer.
No geral, as crianças têm muitas, muitas dificuldades. E os professores, logo à partida, têm medo que os alunos se cansem e nem tentam! “O quê? Dar isso? Eles não gostam, cansam-se”. Há um medo de cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido muito cobaias da educação. E os professores e os alunos não sabem muito bem o que é que andam a fazer... Aconteceu uma coisa terrível é que tudo tem que ser divertido. Há duas palavras que me põem fora de mim: moderno e lúdico! Tudo tem que ser lúdico, tem de ser divertido, nada pode dar trabalho. Não pode ser!
Quando vou às escolas esforço-me imenso por transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho. E eles olham para mim como se fosse uma coisa terrível. Há muitas maneiras de se abordar as coisas, mas se os próprios professores passam a mensagem de não querer ter trabalho... Quando vou ao estrangeiro, vejo os professores e penso “se fosse em Portugal, não era assim”. Eles fazem o que for preciso fazer. Cá dizem que não é da sua competência.. . Isso é complicado.
Sim, os miúdos de Lisboa
têm mais solicitações, ao passo que para os de Trás-os-Montes, a ida de um
escritor à escola é uma festa! Em Lisboa já não há lisboetas, há miúdos de todas
as terras, de todos os países... E porque é que os miúdos da Europa de Leste se
destacam nas escolas? Porque vêm de culturas de trabalho e, desde cedo, ouvem
dizer que têm que trabalhar. Com a democracia, as portas abriram-se, a escola
deixou de ser de elite e estão todos na escola. Ainda bem! Mas os professores
não estavam preparados para isso e admito que é difícil.
Eu gostava de saber onde é
que os professores são formados! Mas tendo alunos tão diferentes é necessário
fazer formação. Porque, coitados dos professores, são deitados às feras! Como se
chega aos alunos? Muitas vezes, olho para eles e vejo que não estão a ouvir
nada. E eu apanho o melhor da escola, a parte boa, não tenho um programa para
dar. Agora, quem está todos os dias na escola, compreendo que seja um stress
terrível. A educação é daquelas matérias em que, se calhar, são precisas medidas
impopulares, mas necessárias. Na educação nunca se fez um salto, que é
necessário, nunca houve um ministro de quem se diga “fez”.
É preciso mais autoridade,
o professor não pode fazer nada, não tem autoridade nenhuma. A solução passa por
mais interesse e mais disciplina. O gosto pelo que se faz. E o professor tem que
sentir esse gosto e passar aos miúdos. A profissão é de risco, de missionário e
não de funcionário público na acepção pejorativa da palavra. Não é uma profissão
como as outras e não é seguramente a de preencher impressos... Voltamos à avaliação! Ela é necessária, todos nós devemos ser avaliados, mas não pelo parceiro do lado ou pelo filho do patrão! Não faço ideia de como é que se avalia, mas na educação existe gente competente, que estudou, e devia ser chamada para dizer como avaliar. Não concordo que sejam avaliados entre eles. Não se pode ser irredutível, quer dum lado [professores] quer do outro [ministério]. As manifestações, no momento a que se chegou, não levam a nada, já vimos que agita, mas não levam a nada. Parece-lhe que o conflito entre ministério e professores não tem fim à vista? Os professores estão cansados, o que também é mau, porque aceitar uma situação só porque já se está cansado não é bom. Tem de haver uma solução, senão o ano lectivo perde-se e o culpado não será só um.
“Tem de haver regras em casa, como na escola”
Sim, mas não podem delegar tudo na escola. A questão da violência é um reflexo do que os miúdos trazem de casa. Os pais têm que se envolver mais não apenas para saber as notas do filho ou se o professor falta. A casa é a primeira escola da criança e se em casa não recebe o mínimo de condições, não sabe como estar com os outros, chega à escola e é o que se assiste. Às vezes parece que os pais de agora têm medo de actuar, de falar com os miúdos. Tem de haver limites e os miúdos precisam e querem que esses sejam estabelecidos. Tem de haver regras em casa, como na escola.
Quando há uma greve, os pais pensam: “Que chatice e agora onde é que deixo as crianças?” Há muitos pais que compreendem. Agora outras camadas... Quando os professores se queixam que estão mais horas nas escolas, as pessoas pensam que eles não querem trabalhar. Mas também penso que já perceberam que os professores têm muitas razões.
Público, 19.01.2009
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