Beja Santos
O consumidor em guerra com o cidadão?
Com a ascensão do individualismo, no final dos anos 70, o consumidor foi
gradualmente abandonando as suas preocupações com a cidadania. Triunfou a moral
do indivíduo, o consumir mais e mais barato transformou-se numa
exigência tirânica, passámos a consumir em função do nosso eu; as nossas vidas
ganharam a dinâmica de uma sequência de operações mercantis.
Deixámos à cidadania as preocupações sociais e os desincentivos à fragmentação.
Oportunistas e pragmáticos, o que queremos é a satisfação instantânea na compra
de bens e serviços. Os novos paradigmas técnicos e tecnológicos aceleraram os
mecanismos da mentalidade individualista, consumo e cidadão são hoje conceitos
extremados. Ser cidadão é observar normas convergentes para o desenvolvimento,
para a liberdade e para a democracia, o cidadão pauta-se pelo que é objectivo, o
que tem a ver com a solidariedade, o respeito pelo outro, o cuidar do outro. O
que predomina no consumo são os direitos subjectivos. É fácil ver, pois, como o
consumo entrou em rota de colisão com a cidadania, o consumo é imediato e a
cidadania é ponderada. Importa saber como ultrapassar uma dicotomia
aparentemente insanável.
As dificuldades em ser bom consumidor e bom cidadão
O consumidor hiperindividualista opera com astúcia, é voraz, quer tudo num instante, assobia para o ar quando se fala na globalização predatória, destruidora das actividades económicas locais. O que lhe interessa é a escolha profusa (a hiperescolha) e é por isso que o mercado responde a esta apoplexia: o delírio das marcas, mais voos, mais excursões, mais cosméticos, mais alimentos disfarçados de medicamentos, mais tudo. Na cidadania, caminhamos para o extremismo, como se sabe e vê: gente mais pobre e gente mais rica, mais excluída e mais incluída, multiequipada ou desprovida de equipamento. Esta é a sociedade egocêntrica em que nos banhamos e em que procuramos ser indiferentes à diluição dos valores. Vivemos na provisoriedade e queremos o consumo extensivo, a qualquer momento: a mesma sociedade que desprogramou o trabalho vive obrigatoriamente a programar o consumo. O consumidor é hedonista e imediato, o cidadão é vigilante e mediato. Numa atmosfera de permanente sedução como aquela em que vivemos, é cada vez mais difícil reflectir o que é melhor para a colectividade, para o bem comum e para o desenvolvimento sustentável. Olhamos à volta e as contradições de um consumo a conflituar com a cidadania são bem visíveis: a agricultura industrial poluente e predatória em contradição com uma agricultura prudente e boa para o ambiente e para a saúde; as guerras dos OGM, que deixaram indiferentes os consumidores que preferem o “bom, bonito e barato”; o comércio justo que procura reconciliar os consumidores e os interesses legítimos dos consumidores, isto em paralelo com as lojas dos chineses, o endividamento excessivo, os 4x4 ou o turismo massificado.
O que é ser consumidor responsável
A que mudanças sociais assistimos? As mudanças em curso pautam-se por uma
revolução demográfica onde o envelhecimento e a versatilidade da estrutura
familiar são dominantes. As fontes de informação mudaram imenso.
Quando um consumidor pretende comprar um carro, pode dar-se o caso de encontrar
padrões mais rigorosos do lado das seguradoras que das associações de
consumidores e automobilistas. Esta informação tem a ver igualmente com os
melhores níveis de educação e com o desejo de saber mais sobre a nossa saúde e a
nossa segurança. Mudou o trabalho, a sociedade é fundamentalmente terciarizada,
somos globais, cépticos quanto ao
funcionamento das instituições, paradoxais e incautos quando falamos do
progresso. É nesta teia de dilemas e tendências que se perfilam a
responsabilidade social, o consumo responsável e o combate às piores
agressividades do mercado. O que se pretende dizer? A responsabilidade social
irá facilitar a reconciliação entre o consumidor e o cidadão. A despeito de
inúmeras vantagens que a globalização trouxe, ninguém ignora as desigualdades e
perigos crescentes que se nos deparam no trabalho ou no género, os direitos
sociais e humanos e o funcionamento das empresas estão sob a mira da opinião
pública. Ainda é cedo para apurar se esta responsabilidade do consumidor é uma
moda uma vaga de fundo. Seja como for, sentimos que os direitos e as
responsabilidades dos consumidores se a articulam progressivamente com o
desenvolvimento social e a qualidade
ambiental é patente à aspiração de que os consumidores pretendem que as suas
escolhas se processem num contexto de justiça social e económica, à escala
mundial. Esta responsabilidade social, por ora uma atitude voluntária, irá tecer
um espaço comum de preocupação com a preservação ambiental, os direitos sociais
dos trabalhadores, a saúde e a segurança no trabalho, as escolhas tecnológicas
que permitam economizar matérias primas e energia e fazer melhor com menos. Dito
de outro modo, o consumo responsável tem a ver com o biológico, a conservação da
energia, a ética e a sustentabilidade. Daí a vigilância cada vez mais severa que
se prevê com as piores agressividades do mercado, travando a mentira, o abuso
sobre a vulnerabilidade dos consumidores.
Uma responsabilidade que reconcilie o consumidor com o cidadão
Cresce a preocupação para que o indivíduo ou agente no mercado assuma as suas
responsabilidades com os valores da cidadania. Esta responsabilidade chama-se
educação, chamamento à participação, mobilização para as inclusões, aprendizagem
da ética associada ao funcionamento do mercado, o mesmo é dizer que as relações
entre produtores prestadores de serviços, Estado, empresas e consumidores
pressupõem uma nova atitude. Até agora a defesa do consumidor propunha que a
oferta vigia-se tudo de fora, criticando sem questionar os fundamentos da
produção e até da proveniência dos produtos. O que acontece é que as
desigualdades socioeconómicas, o endividamento excessivo, o agravamento do
preços dos combustíveis, a aproximação entre o consumo e o desenvolvimento
sustentável, trouxeram um novo desígnio para a responsabilização. O consumidor
pode ainda não aceitar mas ganhou consciência de que a evidência ambiental, o
altruísmo, a responsabilidade social são as formulações do futuro que irão
reconciliar os valores da cidadania com os novos cuidados e um consumo ao
serviço do bem comum. Dentro em breve, saberemos se esta responsabilização foi
mais uma moda ou se integrou numa vaga de fundo. O que sabemos por ora é que não
há alternativa à responsabilidade nos nossos actos de consumo.