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Nem devoluções, nem antecipações, mas agarrar o leitor na Internet
In Correio da AESE
A editora norte-americana HarperCollins decidiu alterar as suas práticas de negócio e lançar uma nova colecção de livros, dos quais não aceitará devoluções por parte das livrarias. Além disso, pagará pouco ou nada em antecipações aos autores.
Juntamente com isso, a editora reduzirá também custos, renunciando a pagar por ocupar um lugar destacado nas montras das livrarias. Esta nova colecção inicia toda uma nova estratégia para o negócio editorial, na qual escritores e editores partilharão os seus lucros (em vez das antecipações aos autores, ser-lhes-á entregue uma percentagem sobre lucros, que poderá chegar aos 50%) e que concentrará grande parte dos seus esforços na promoção e comercialização através da Internet.
Nos EUA, como noutros países, as livrarias podem devolver os livros que não venderam. O sistema actual encoraja os retalhistas a pedir às editoras importantes quantidades dos livros que previsivelmente virão a ter bom acolhimento entre o público. Isto gera abundantes devoluções: entre 30% e 40% dos exemplares. Percentagens semelhantes acontecem com CD, DVD e videojogos.
Não é evidente a forma como as livrarias irão responder a este novo perfil de negócio, que procura eliminar o direito de devolução. Embora não seja a primeira vez que é ensaiada uma experiência semelhante, para Lorena Shanley, da empresa de consultadoria de mercado Partners International, «agora há melhores condições para que tenha sucesso, porque tanto editores como distribuidores sentem os efeitos da desaceleração económica do sector.»
Robert S. Miller irá chefiar a nova estratégia da HarperCollins. Conforme explica no The Wall Street Journal (4/4/2008), «há tanta ineficiência no nosso negócio, tanto desperdício, que é o momento de, pelo menos, experimentar novas abordagens». Miller reconhece que muitos autores não estão interessados numa sistema que elimina os pagamentos antecipados, mas espera atrair títulos não publicados de escritores veteranos que estão nas gavetas, porque os seus autores não avançaram para o respectivo lançamento, por pensarem que não se enquadram com a imagem que querem dar.
De qualquer forma, é evidente que a HarperCollins está a procurar a inovação no negócio editorial. Há alguns meses, decidiu colocar alguns dos seus livros na íntegra na Internet, numa tentativa de atrair os leitores para a compra da edição em papel. Os livros não podem ser gravados para os computadores das pessoas, nem impressos, somente lidos no monitor. Mas espera-se que aqueles que acharem interessantes as primeiras páginas se decidam a comprar o livro. Como explicava o The New York Times, «há provas de que os leitores continuam a comprar os livros quando podem consegui-los gratuitamente na web. Diary of a Wimpy Kid, um romance ilustrado para crianças, foi publicado há três anos em Funbrain.com, um site educativo da web. Mas o livro físico esteve 42 semanas na lista de livros infantis mais vendidos».
A estratégia do livro gratuito na rede da HarperCollins foi iniciada com o texto completo da versão inglesa de A Bruxa de Portobello (The Witch of Portobello), de Paulo Coelho. O escritor brasileiro disse, numa entrevista ao diário nova-iorquino, que «a generosidade tem a sua própria recompensa» e mostrou-se convencido de que aqueles que experimentarem ler os seus livros pela Internet não irão além de 20 ou 30 páginas, antes de tomarem uma decisão sobre se compram ou não. Outra iniciativa inovadora da HarperCollins é a de oferecer o audiolivro ou livro electrónico pela compra do livro em papel, sem aumento de preço. Na promoção e no marketing, as editoras estão também a aproveitar o instrumento que a Internet coloca à sua disposição. Fórmulas como os colóquios digitais com os autores estão a começar a impor-se nas webs das editoras. Também inserem na Internet imagens das paisagens e decorações em que presumivelmente se desenvolvem os romances e retratos dos protagonistas. Outra estratégia é inserir na web da editora imagens do escritor a ler fragmentos da sua própria obra.
Mas a técnica que se está a impor com mais força é o book trailer, que incorpora técnicas cinematográficas à promoção editorial. Os anúncios podem ir desde a simples sucessão de fotografias com música ou efeitos visuais, até à integração e rodagem de pequenas peças com actores. Os book trailers são já um género publicitário em si mesmo, com prémios próprios como os Teen Book Video Awards, patrocinados pela Random House e pela Booksellers. |