Bullying e Cyberbullying: As
Diferenças
Por Tito de Morais
O programa "Falar Global", na SIC Notícias, dedicou a última
edição ao bullying na Internet, um tema sobre o qual ando a falar
desde 2003. A este propósito parece-me importante acrescentar alguma
informação relevante para percebermos a diferença entre bullying
e cyberbullying.
Reginaldo Rodrigues de Almeida introduziu o programa classificando o
bullying como "uma forma dos mais fortes exercerem pressões
psicológicas e até físicas sobre os mais fracos" e que já chegou à
Internet. É verdade, mas pelas características próprias deste fenómeno e
como forma de o diferenciar de outra formas de bullying, na
Internet o fenómeno é conhecido por cyberbullying. Dado o
programa não distinguir claramente o bullying do cyberbullying,
utilizando ambos os termos algo indiscriminadamente, pareceu-me
importante escrever este artigo para que possamos perceber as
diferenças.
Nem Sempre Maiores, Mais Velhos e Mais
Fortes
Para além da diferença óbvia de, contrariamente ao bullying
presencial, o cyberbullying ocorrer através das tecnologias de
informação e comunicação (TIC), uma distinção importante é que no
cyberbullying, contrariamente ao que a introdução de Reginaldo
Rodrigues de Almeida refere, o agressor (o bully) não precisa de
ser maior ou mais forte que as suas vítimas. Este aspecto escapou também
a Eduardo Sá, o conhecido psicólogo convidado do programa, ao responder
à primeira pergunta que lhe é colocada, sobre o que o motiva os
potenciais agressores. De facto, enquanto no bullying presencial
a vítima é geralmente mais nova ou mais fraca - física ou
psicologicamente - que o agressor, no cyberbullying nem sempre é
assim.
"Longe da Vista, Longe do Coração"
Outro aspecto relevante segundo o qual o cyberbullying difere do
bullying presencial é que no primeiro, como referi, as acções do
agressor têm lugar através das TIC, o que faz com que não presencie de
forma imediatamente tangível os resultados das suas acções na vítima.
Daqui resulta que o agressor não vê de imediato o mal que causou, as
consequências dos seus actos, o que minimiza quaisquer eventuais
sentimentos de remorso ou empatia para com a vítima que pudesse vir a
sentir em resultado dessa constatação. Esta realidade cria, assim, uma
situação em que as pessoas podem fazer e dizer coisas na Internet que
seriam muito menos propensas a dizer ou fazer presencialmente. Exemplos
que ilustram, de forma excelente, o que acabo de dizer são dois vídeos
educativos (infelizmente em inglês), produzidos no âmbito de uma
campanha de combate ao cyberbullying nos Estados Unidos da
América.
Motivação dos Agressores
Ainda a propósito da compreensão das motivações do comportamento dos
agressores, da minha experiência este tipo de comportamentos pode ser
motivado por razões tão vulgares quanto o facto de uma rapariga não
prestar a atenção que um pretendente acha que merece, um namorado
procurar vingar-se da namorada que pôs um ponto final ao namoro, uma
rapariga invejosa do sucesso ou popularidade de uma colega, etc. Outras
vezes, tratam-se de brincadeiras de mau gosto que no mundo físico
aconteceriam uma única vez e seriam esquecidas, mas que devido à
persistência, pesquisabilidade e replicabilidade dos conteúdos e
invisibilidade das audiências, na Internet adquirem uma dimensão
imparável e desproporcional.
Acções Episódicas, Tornam-se Persistentes
Estes últimos aspectos (persistência,
pesquisabilidade, replicabilidade e invisibilidade), foi algo que
escapou a Eduardo Sá, o conhecido psicólogo convidado para o programa,
ao responder à pergunta sobre se o cyberbullying poderia conduzir
à morte. De facto, as acções episódicas não constituem bullying,
dado que este se caracteriza por acções repetidas ao longo do tempo. No
entanto, em resultado da persistência, pesquisabilidade, replicabilidade
e invisibilidade já referidas, aquilo que pode aparentar ser episódico,
na Internet é na realidade repetido ao longo do tempo. Um exemplo que
ilustra o que afirmo é o caso do
Star Wars Kid, tema do primeiro artigo em que abordei o
cyberbullying.
Acções Entre-Pares
Uma das características que distingue o bullying do simples
assédio, da agressão, difamação, humilhação, ou perseguição é o facto de
apenas se considerar como actos de bullying as acções que têm
lugar entre pares. À luz deste princípio, actos em que as vítimas são os
professores mas os agressores são crianças, ou vice-versa, não se
consideram bullying. Dependendo do acto em si, poderão configurar
qualquer uma das situações acima referidas (assédio, agressão, etc.) e
muitas outras, tais como coacção, chantagem, manipulação, etc. Já as
situações em que agressores e vítimas são ambos professores, podem
configurar um tipo particular de bullying, o bullying no
local de trabalho, sendo no entanto que o termo bullying, apesar
de se poder aplicar a contextos diversos, se aplica cada vez de uma
forma mais generalizada ao bullying escolar onde as vítimas e os
agressores são crianças e jovens. Outro aspecto relevante é que dado o
anonimato proporcionado pela Internet, é muitas vezes difícil afirmar
categoricamente se agressores e vítimas são pares. Por esta razão, no
cyberbullying, este não é um facto considerado relevante pela
generalidade dos investigadores podendo-se, no entanto também falar de
ciber assédio, ciber perseguição, etc.
E Antes da Internet?
A confusão entre bullying e cyberbullying surge novamente
quando Reginaldo Rodrigues de Almeida questiona Eduardo Sá sobre se
estes comportamentos existiam também antes da Internet. Tal é verdade
com o bullying, mas o cyberbullying surge apenas com a
proliferação das TIC, manifestando-se e propagando-se por meios que até
aí não existiam. As características das TIC em geral e da Internet e
particular, potenciam assim, de facto, este tipo de fenómenos que têm
vindo a assumir dimensões cada vez mais preocupantes em resultado da
elevada penetração das TIC na população em geral, e nas crianças e nos
jovens em particular.
Acções em Diferido
A terminar as comparações entre bullying e cyberbullying,
parece-me ainda relevante sublinhar que, enquanto geralmente o bullying
é presenciado por testemunhas/observadores no momento em que acontece, o
mesmo geralmente não acontece com o cyberbullying, que ocorre
geralmente a coberto do anonimato, deixando assim as vítimas ainda mais
vulneráveis ou desprotegidas. Acresce ainda que, enquanto a casa
constitui geralmente um refúgio onde a vítima de bullying está
geralmente a salvo das acções do agressor, tal não acontece com o
cyberbullying, onde até em casa a vítima não está a coberto das
acções do agressor. Seja ao abrir uma mensagem de correio electrónico,
de Instant Messaging, ao receber um SMS, ao consultar um fórum ou
uma simples página web.
E os Valores?!
À pergunta sobre de que maneira os encarregados de educação podem estar
mais despertos para esta realidade, Eduardo Sá revela o melhor da sua
intervenção, se bem que se desvie um pouco do tema acabando por se
esquecer de referir que o bullying e o cyberbullying são
sobretudo uma questão de carácter e que, como tal, todas as notícias
sobre o tema devem ser aproveitadas por pais e professores como ponto de
partida para conversas e discussões em torno dos valores que a família e
a escola considera importantes e como estes valores podem ter uma
influência positiva nestes fenómenos.
Soundbytes
O programa conclui com uma série de excelentes "soundbytes" nos
quais Eduardo Sá se revela especialista e que decididamente valem a pena
escutar pela voz do próprio, com o devido enquadramento. Mas pena que
tenha perdido uma excelente oportunidade de enunciar alguns passos
concretos que o Ministério da Educação e as escolas podem começar a
tomar, já hoje, para combater este tipo de fenómenos.
De facto, como conclui o programa, a surdez apontada por Eduardo Sá
pode (?) levar ao crescimento exponencial do cyberbullying.
Coloco o ponto de interrogação, porque em Portugal, se já existem
estudos sobre o bullying escolar, sobre o cyberbullying
não existem estudos e como já tenho dito, enquanto tal não acontecer,
politicamente é como se o problema não existisse.