Temos a Televisão que merecemos?
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Não aceito a afirmação de que temos a TV que merecemos.
Primeiro, porque o seu sistema de avaliação super-secreto merece pouco crédito
– tal como tudo o que não se vê nem fica registado. Depois, porque motivo vêem
um programa as pessoas que se supõe estar a vê-lo? A quem não aconteceu já,
depois de ter andado às 10 da noite a saltar de um programa para outro,
fixar-se – por exclusão de partes – no menos mau? Mesmo que o programa mais
néscio e infamante fosse o que mais se vê, isso justificaria a sua emissão? Com
efeito, há coisas que se consideram prejudiciais – álcool, tabaco, ideias
racistas ou discriminatórias, etc. – que, exactamente por isso, nunca saem da
televisão. E a ninguém ocorre dizer que cada um decide apagar ou não o
televisor quando se anuncia tabaco ou se apoia e aplaude um descerebrado
racista.
A exaltação do violento e da própria violência, a
apresentação do homem e da mulher como meros objectos, a valorização do êxito
profissional à custa de qualquer meio ou a acumulação de uma fortuna como
paradigma de realização pessoal, o culto do ambíguo e do enganoso, os
comentários frívolos sobre as relações entre as pessoas, em doses de mais de
duas horas diárias ao longo dos anos, não prejudicam mais a sociedade do que o
tabaco?
Então porque é que há quem se mostre indignado quando se
apela para a responsabilidade dos jornalistas e empresários da televisão por
nos tratarem tão mal? Ao menos poderiam pensar nisso.
Não, realmente nós não merecemos esta televisão. Nem nós
nem ninguém que se considere como pessoa. Simplesmente não há direito de que
apenas por dinheiro – poderosa razão – se cause um mal social.
Exagero? Creio que não. Aqui vai um dado objectivo: Um recente
estudo intitulado “Valores Sociais e Drogas”, levado a cabo pela Fundación de Ayuda
contra la Drogadiccion,
revelou que as franjas de jovens que se identificam com valores hedonistas, impróprios ou interesseiros apresentam maior
probabilidade de vir a consumir tabaco, álcool e sobretudo cannabis
e outras drogas.
É evidente que ninguém se vicia em drogas por ver
televisão mas há dados estatísticos credíveis que relacionam determinados temas
frequentemente apresentados na televisão com uma maior percentagem de dependência
dessas substâncias.
Por favor, na televisão, nem parvoíces nem sermões. Apenas
um pouco de consideração por aquilo que merece respeito.
In Boletim de ATR (Agrupación de Telespectadores y
Radioyentes) – Madrid
(tradução)