A
estupidificação da Humanidade
Jornal "Sol"
Um destes dias entrei no carro e, maquinalmente, estendi o braço na direcção do
rádio para o ligar. É um gesto que milhares de portugueses fazem diariamente ao
início da manhã e ao fim da tarde. Mas a meio caminho suspendi o movimento.
Apetecia-me ouvir o quê: música ou notícias? Subitamente percebi que aquilo que
me apetecia mesmo era não ouvir nada. Apetecia-me gozar o silêncio.
E aquele gesto que suspendi, aquele simples gesto de premir um botão, separa
dois modos de estar completamente diferentes, para não dizer opostos.
O indivíduo que liga o rádio do carro torna-se, a partir desse momento, um
ouvinte – um 'consumidor' de música ou notícias. Inversamente, o indivíduo que
conserva o rádio desligado pode ser um 'produtor', porque o silêncio permite-lhe
pensar.
Para bem das estações radiofónicas, a decisão de manter o aparelho de rádio
desligado é cada vez menos frequente. Os indivíduos são cada vez menos
produtores e cada vez mais consumidores. Já quase não sabem fazer mais nada
senão consumir.
E não me refiro apenas – note-se – às compras (...) refiro-me ao consumo 'em
geral'.
As pessoas
sentam-se ao volante e imediatamente começam a consumir rádio. Chegam a casa,
sentam-se no sofá e começam a consumir televisão. Depois sentam-se à mesa,
naturalmente a consumir… comida. Depois do jantar ou vêem televisão, ou falam ao
telefone ou ao telemóvel, ou põem-se diante do computador a consumir na internet
textos ou imagens. E na manhã seguinte voltam a ligar o rádio. E a caminho do
emprego, depois de estacionarem o carro, põem os auriculares nos ouvidos e ouvem
mais música, e no emprego ligam o computador – onde passam uma boa parte do
tempo a consumir mais imagens, mensagens, e-mails, informação… E nos intervalos
lêem os SMS que receberam.
Há duas gerações atrás as crianças fabricavam muitos dos seus brinquedos.
Organizavam
equipas de botão e de caricas, construíam carros de esferas e trotinetas,
improvisavam bolas. Faziam álbuns para guardar os selos. Compravam construções
de cartolina ou plástico para montar, algumas altamente complexas: palácios,
fortalezas, aviões, navios, com centenas de peças que se tinham de recortar e
colar com Cola Cisne (no caso da cartolina) ou com cola tudo (no caso das
construções de plástico). E havia outros brinquedos como o Lego, constituído por
peças de encaixar (como se fossem tijolos) com as quais se fazia todo o tipo de
construções ao sabor da imaginação.
Estas crianças que construíam os seus próprios brinquedos ainda estavam próximas
do homo faber, do homem fabricante dos utensílios necessários para sobreviver.
Mas em duas gerações tudo mudou. As crianças deixaram progressivamente de
construir brinquedos e tornaram-se furiosas consumidoras. Não constroem nada,
mas têm os quartos cheios de brinquedos comprados nas lojas. E nos tempos livres
consomem televisão e DVD ou jogam no computador, enquanto comem bolachas,
pipocas ou batatas fritas e bebem Coca-Cola.
O problema agrava-se pelo facto de, a esse vazio produtivo, se somar uma
demissão de pensar. Na sua fúria consumidora, os homens desabituaram-se de
pensar. Perderam a disponibilidade para pensar. Não têm tempo para pensar. Têm
medo de pensar. Têm preguiça de pensar. Quando arranjam um bocadinho livre
sentem-se mal, agarram-se ao telemóvel a marcar números, a falar, a receber
mensagens.
A expressão "opinion makers" é um produto desta sociedade onde as pessoas só
consomem e não pensam. Até porque, se lhes sucede – num momento raro – pensarem
um bocadinho e chegarem a uma conclusão diferente da que é partilhada pela
maioria, assustam-se e acham que se enganaram. Sentem-se, pois, mais seguras a
consumir as opiniões alheias, as opiniões das pessoas pagas para pensar. As tais
opiniões dos opinion makers ou opinion leaders.
(...) Dizer-se que as pessoas hoje têm mais informação é uma ilusão: consomem,
de facto, mais informação, funcionam como esponjas, mas depois não usam essa
informação porque não produzem quase nada.
(...) Máquinas cada vez mais velozes e sofisticadas multiplicam por milhões
produtos pensados por uma pequeníssima minoria de criadores.
E essa legião de consumidores assemelha-se progressivamente a uma legião de
escravos – escravos de todos os tipos de consumo, inclusivamente das opiniões de
outros.
Durante séculos a Humanidade evoluiu porque os seres humanos eram obrigados a
produzir e a pensar. Hoje vive-se a situação contrária: como os homens estão a
desabituar-se de pensar, a Humanidade encontra-se num processo de
estupidificação.