DISTANCIAMENTO HISTÓRICO
A RTP transmitiu recentemente a mini-série “A Filha do Duce”, excelente produção da RAI que analisou por dentro o designado fascismo italiano.
É um período histórico enigmático, mau grado a abordagem convencional negativa que tem sido feita até aqui.
Os italianos revelam ter atingido uma maturidade política tal, que a democracia, segura dos seus valores, não receia reconhecer aspectos positivos de situações conturbadas e nefastas contrárias ao seu espírito.
Já a série “Maria José de Itália” , que aqui referimos, tinha revelado que ao mais alto nível dos responsáveis políticos italianos havia mulheres e homens corajosos que procuravam desesperadamente uma saída do despotismo do chefe cruel e fanático .
Desta vez é a figura do Conde Ciano, genro de Mussolini, que se destaca corajosamente na oposição às decisões tresloucadas do ditador.
Aparecendo como um homem moderado, na fronteira da tibieza, ele a pesar de tudo assume a contestação da facção fascista que se opunha à guerra, sendo apoiado por sua mulher Edda, filha do Duce.
Concluímos que Mussolini condena o próprio genro à morte por pressão de Hitler, aquele que dirigia o aparelho italiano, como aliás já se tinha percebido na série “Maria José”. Este exemplar tratamento, objectivo e distanciado, com que os italianos abordam as suas figuras históricas deveria ser seguido entre nós, onde uma mini- série como “Bocage” parece, em cada episódio pretender diminuir e denegrir o poeta. O sinal no canto direito da imagem, prevenindo eventuais cenas chocantes (que efectivamente aparecem) num trabalho sobre um grande poeta português que aprendi a respeitar desde os bancos da escola, percursor do romantismo em Portugal, é inaceitável.
Tendo vivido numa época dissoluta, ele não pôde alhear-se dos hábitos sociais degenerados; mas, como disse Herculano, com ele a poesia desceu do salão para a rua, tornando-se acessível e em alguns casos popular.
Mas Bocage , com uma sensibilidade quase camoniana, deixou-nos também versos de delicado lirismo e mesmo fervor religioso comovente.
Não é justo apresentar uma figura notável da cultura portuguesa apenas nos seus contornos satíricos e mesmo debochados.
A programas destes chamamos, não culturais, mas anti-culturais e anti- nacionais.
PS: Terminou o espectáculo mediático da eleição presidencial. Foi enfadonho, truculento e nalguns casos indigno. E teve a curiosidade de evidenciar o efeito “boomerang” já há muito conhecido na sociologia da comunicação.
03-Fev-2006
Manuel José Lopes da Silva, Professor Jub. UNL.