ESTILOS
È natural que nesta crónica façamos um comentário à mediatização da campanha presidencial.
Porém a programação actual da RTP merece uma breve referência , diferindo para mais tarde uma análise detalhada. Assim é de assinalar muito positivamente a retransmissão da série “ Retalhos da vida de um Médico”, um clássico da nossa TV, exibindo as limitações tecnico-operacionais da época, mas com uma frescura e um carinho pelos nossos valores tradicionais que ajudam a invocar a nossa identidade nacional, e confirmando o critéro acertado que normalmente norteia o Canal Memória.
Quanto à mediatização da campanha presidencial, pareceu-nos que o esquema adoptado para os debates foi apropriado ao Medium TV e à maneira de ser portuguesa, excessivamente emocionável e impulsiva.
Para a nossa maneira de ser esta é a possibilidade de, calmamente, permitir entender com clareza as referências ético-políticas e as intenções dos vários candidatos.
Todos os debates evidenciaram, em geral, o civismo das intervenções, as declarações de intenção, as propostas para um Portugal melhor.
Em alguns casos, todavia, as intervenções assumiram um estilo incivil, até mesmo agressivo, o que é de lamentar em cadidatos à mais alta magistratura do nosso País.
Outro aspecto negativo foi a opção de alguns candidatos em atacar os adversários mais do que em explicar as suas próprias propostas. Opção que se revelou infeliz porque reconduziu os debates mais para o passado do que para o futuro, até porque a sociedade enfrenta no Sec.XXI problemas muito diferentes, e mais complexos do que os do Sec.XX.
Surpreendentemente alguns candidatos ( e também alguns moderadores...) insistiram nas limitações jurídicas do Presidente da República para actuar politicamente, desvalorizando a sua alta Magistratura.
A sociedade civil, essa, entende muito bem o que é o seu Presidente: uma referência ético-política, a representação dos seus mais altos valores, um árbitro na arena política, a incarnação do regimen - sendo evidente que não é qualquer cidadão que pode aspirar a uma tão elevada posição.
Já na Teoria Política se afirma que a legitimidade do regimen democrático assenta no comportamente ético dos dirigentes. O Presidente tem assim de ter um comportamento acima de todos os interesses particulares, velando pelo cumprimento das regras democráticas, a começar pelo Quadro Jurídico.
Por isso uma visão que introduza no debate ideias apenas racionalistas e ressequidas está completamente ultrapassada.
A questão já não passa por aí; temos hoje de promover a harmonização duma economia global e duma política mundial com os direitos fundamentais de índole social, política e económica, na perspectiva da solidariedade entre todos os homens.
E também a de orientar a nossa democracia mediática no sentido duma democracia real, que respeite os sentimentos dos cidadãos telespectadores, as suas convicções, a sua sensibilidade.
23-Dez-2005
Manuel José Lopes da Silva, Professor Jubilado da UNL