UM DISCURSO HONESTO
Os canais de Rádio e TV deram o devido relevo à cerimónia de tomada de posse do Presidente Cavaco Silva, cumprindo assim a sua missão de informar os cidadãos acerca dos factos que directamente os afectam, na medida em que se tratou dum acto que simboliza a unidade e perenidade da comunidade nacional.
Uma tal missão tem sido atribuída à Radiodifusão desde que ela nasceu há quase um século.
Em 10 de Maio de 1940, num momento muito difícil para a Inglaterra, a BBC transmitiu um dramático discurso de Churchil em que este informou os ingleses de que só lhes poderia oferecer “sangue, suor e lágrimas “. Este discurso tornou-se o modelo de discurso honesto, que manifesta respeito pelos destinatários, apela ao seu sentido de responsabilidade e, não ocultando a verdade, os convoca para as necessárias actuações difíceis e corajosas.
Cavaco Silva fez na tomada de posse como Presidente dos Portugueses um discurso também honesto, numa situação muito difícil para o nosso país: Ele disse que “Portugal precisa de todos os Portugueses numa atitude de dedicação ao trabalho, de rigor e persistência, num esforço redobrado para fazer bem e com qualidade” só assim sendo possível ultrapassar a crise.
O discurso, no seu conjunto, é uma peça política de grande qualidade intelectual, surgindo num momento em que as intervenções dos actores políticos a não têm em geral.
Não podemos fazer agora a análise que o documento merece, mas queremos sublinhar a importância que Cavaco atribui à questão ético-política. Já há muito tempo que não surgia um político a invocar os verdadeiros valores da Democracia : “ Numa sociedade fundada no principio democrático, a política é uma das mais nobres actividades, porque tem a ver com a realização do bem-comum e com a preservação e reforço dos valores perenes de uma comunidade nacional”.
A propósito do aniversário da largada de Pedro Álvares Cabral para a sua viagem imortal, disse ele : “ Desejo que a minha eleição fique associada a bom tempo para a vida do País, que brisas favoráveis conduzam ao rumo certo, que os portugueses reavivem a esperança e ganhem o ânimo e crença que permitam conduzir a nau colectiva para além da distância, da incerteza e do desconhecido, até porto seguro”.
E nós pensamos que assim os portugueses poderão, de novo, “ em perigos e guerras esforçados, mais do que permite a força humana, um novo espaço português edificar”.
12-Mar-2006
Manuel José Lopes da Silva, Professor Jub. UNL.