|
Ciência e religião em Oxford
Entre 14 e 16 de Setembro, decorreu o primeiro fim-de-semana dos
antigos alunos da Universidade de Oxford - o primeiro em 800
anos, deve talvez ser referido. Até esta data, a Universidade
nunca tinha organizado uma iniciativa central para antigos
alunos. Todos os anos, ou de dois em dois anos, cada colégio
organizava os seus próprios encontros, o que continuará a
acontecer.
Cerca de mil pessoas compareceram, o que não é seguramente
muito. A par de uma organização impecável, era sensível a tensão
entre a direcção central da Universidade e os colégios. Alguns
simplesmente não participaram no evento. Outros limitaram-se a
uma breve recepção de boas-vindas. Ainda assim, o programa foi
intenso, com palestras e debates para todos os gostos.
O tema central do momento, a que fiz referência neste espaço a
18 e 25 de Abril, é sem dúvida o da relação entre ciência e
religião. Uma avalancha de livros sobre a matéria ocupa os
lugares de destaque nas inúmeras livrarias. Várias palestras
abordaram o tema durante o fim-de-semana.
Oxford é talvez particularmente sensível a este debate - que, no
entanto, ocorre também pela Europa - porque dois professores da
casa lideram campos opostos. Richard Dawkins desferiu um
exaltado ataque à religião no livro ‘The God Delusion’. Alister
McGrath acaba de responder serenamente em ‘The Dawkins Delusion?
Atheist fundamentalism and the denial of the divine’. A formação
científica de ambos torna o confronto especialmente desafiante.
No plano político, o principal ataque à religião foi desferido
por Christopher Hitchens em ‘God is not Great: The case against
religion’. Em minha opinião, é um livro vulgar que ignora de
forma surpreendente a matriz cristã da civilização ocidental -
que o autor diz defender. Esta matriz cristã é eloquentemente
recordada num grande livro do nosso amigo Robert Royal, ‘The God
that did not fail’.
Um dos aspectos intrigantes deste debate reside na diferença de
tom entre os dois campos. Os ateístas escrevem com ardor e zelo,
acusando a religião de ardor e zelo. Os cristãos respondem com
serenidade, acusando o ateísmo de dogmatismo fundamentalista.
Sem prejuízo de um exame mais detalhado, que este espaço não
permite, a diferença de tom ilustra algo mais fundo: uma
diferença de atitude. Enquanto os cristãos sabem que acreditam,
os ateístas acreditam que sabem - sem saber que acreditam. Esta
crença dogmática na razão constitui o cerne daquilo que Raymond
Aron designou por ópio dos intelectuais.
|